Dubin e eu tínhamos longas discussões, na editora e na mesa do bar, sobre literatura e gramática, e discordávamos radicalmente quanto à colocação de vírgulas. Dubin é um oficialista, diz que há leis para o uso da vírgula que devem ser respeitadas. Eu sou relativista: acho que vírgulas são como confeitos num bolo, a serem espalhadas com parcimônia nos lugares onde fiquem bem e não atrapalhem a degustação.
Do editor, até agora sem nome, em Os Espiões de Luís Fernando Veríssimo (outro presente de Bruna, Tomás e Flávio).
“Nas menores oportunidades, Jake gostava de contar a qualquer um que estivesse ao alcance de sua voz os três grandes segredos de como proceder quando não se tem a mais vaga idéia do que se está fazendo. Esses segredos, na ordem em que invarialvelmente os listava, eram: intuição, razão e desespero.”
Trecho da novela Fup de Jim Dodge. (Obrigado aos amigos Bruna, Tomás e Flavio pelo mimo)
Sonhei esta noite que tive um filho. Por algum motivo, quando cheguei na maternidade o menino já estava no bercinho, me esperando. Minha primeira reação foi de inquietação, ele não se parecia muito comigo, mas num exame mais atento fui me reconhecendo no pequeno.
Acho que nunca me senti tão feliz em nenhum dos meus sonhos. Saí para passear com o meu filho pelas ruas da Chácara Santo Antonio, mostrei para ele, mesmo sabendo que não podia entender, os lugares em que trabalhei, em que costumava comer, em que comprei parte das coisas que deixarei para ele. Acho que nunca me senti tão feliz nem acordado.
Quando o ruído do despertador me acordou fiquei desconsolado. E o dia começou triste como se meu filho tivesse morrido e eu nem no velá-lo pudesse.
“Apesar do significado religioso das oferendas, as fraudes grassavam na linha de produção. As análises de Salima com raio X revelaram toda variedade de abusos contra os consumidor: um animal mais barato substituindo um mais raro e caro; belas bandagens circundando nada além de barro. Quanto mais atraente a embalagem, maior a chance de fraude, constatou a cientinsta.”
Trecho da matéria de A.R. Willians para a National Geographic comprovando que muito antes de se comprar gato por lebre já se comprava múmia de gato por múmia de lebre.
Beber diariamente, se você não é russo, irlandês ou nórdico, pode levantar dúvidas sobre o seu grau de dependência alcoólica. Se você trabalha em bar ou, como eu, escreve sobre bebidas, fica mais exposto aos prazeres etílicos e suas tentações.
O problema é que qualquer decisão tomada na Escandinávia sobre a dureza do mundo parece aconselhamento sexual dado por virgens que detestam sexo para prostitutas, essas nossas parceiras ancestrais. Que Deus as proteja. Quantas vidas solitárias elas já não salvaram?
— Luiz Felipe Pondé na Folha ontem sobre o Nobel concedido a Obama
JEAN-MICHEL FRODON - É um cinema sem maior brilho. Vi alguns documentários interessantes, mas o cinema brasileiro não é tão bom quanto poderia ser, ou o quanto imaginamos que seria. O último filme brasileiro do qual eu gostei foi "Mutum".
FOLHA - Houve algum momento, além do cinema novo, em que o Brasil chamou a atenção da crítica internacional?
FRODON - Havia muita expectativa quando o Brasil voltou a ser um país democrático e, depois, a esperança de que o fenômeno Walter Salles não fosse isolado. Mas a promessa não se cumpriu. A Globo soube tirar vantagem do desenvolvimento do país e isso teve efeitos sobre o cinema.
FOLHA - Por o cinema brasileiro era visto como promessa?
FRODON - Porque o Brasil parece um país obviamente feito para o cinema. As paisagens, a riqueza cultural, a genialidade de um diretor como Mário Peixoto... Alguém poderia até questionar o seguinte:
os mesmos ingredientes que fazem o futebol brasileiro ser único não poderiam ser também utilizados no cinema? O Brasil vem ganhando visibilidade internacional e poderia traduzir esse movimento histórico em filmes, mas, ao contrário da China e de outros países asiáticos, não tem feito isso.
FOLHA - O senhor vê algo de brasileiro em filmes como "Ensaio sobre a Cegueira" ou "O Jardineiro Fiel", de Fernando Meirelles?
FRODON - Eu os vejo como filmes internacionais. E ruins.