Crônico
Acordei 3 horas da manhã e decidi que não iria fazer como nos dias anteriores e desperdiçá-lo acordado de noite e dormindo de dia. Como eu não podia mais voltar para a cama e dormir, resolvi ficar acordado o tempo que fosse até chegar a hora de dormir dos justos (e empregados). Assim o fiz, mas fui tomado de uma ânsia que me impedia de apenas ficar sentado no sofá esperando o dia clarear para fazer alguma coisa. A primeira coisa que fiz foi ver todos os anúncios impressos do clube de Criação que não olhava há muito tempo. Eram mais de 260 peças. Pulei os spots e filmes para não empacar a leitura. Salvei alguma coisa que achei interessante no meu banco de anúncios.
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Ainda vi alguma tv, mas de madrugada não há muita coisa, mesmo na TV paga a que estou preso por um contrato feito na época das vacas gordas. Na minha última tentativa de cancelá-la, argumentei com a atendente que num momento de crise a empresa deveria se manter em disposição de ajudar os clientes que estão em situação delicada, assim como o governo está para ajudar os setores que estão em dificuldade. Mas ela não quis ou não pode fazer nada por mim. Tive de entender, os contratos estão aí para serem honrados. Mas me lembrei de um caso que aconteceu na última vez em que fiquei desempregado. Na época havia me demitido para me mudar para São Paulo. Como estava sem emprego, resolvi cancelar a Folha de S. Paulo. Liguei e expliquei para a moça que estava desempregado e não podia arcar com a assinatura e por isso iria cancelá-la. A resposta dela me pegou desprevenido. Ela me disse que seria muito mais fácil para conseguir emprego se eu estivesse bem informado e que para me ajudar a ficar bem informado eles me dariam alguns meses de assinatura gratuita. A TVA tem muito que aprender com a Folha.
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O dia clareou e eu já tinha mandado muitos e-mails. Um para o Vinicius, outro para o Carrascoza e muitos para agências com meu portfólio e um pedido para que ele fosse incluído na pilha para futuras contratações. Tomei banho com uma idéia na cabeça de ir ao cinema assistir Star Trek. Queria pegar a primeira sessão possível, porque sabia que em algum momento o sono iria me derrubar. Se posso dormir de graça em casa, não gostaria de pagar quase 20 reais para fazê-lo sentado no cinema. Analisei minhas opções. No Cinemark eu pagaria apenas R$ 6,00 para ver o filme. No shopping A eu pagaria estacionamento também. No B não, mas as sessões começavam muito tarde. Acabei optando pelo Bristol, onde paguei R$ 14,00 + metrô, mas a sessão começaria às 13 horas.
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Como ainda não passava das 7 horas, e aquela ânsia começava a corroer meu estômago fui fazer a única coisa que podia naquele horário sem incomodar ninguém. Peguei o jornal e fui lavar roupas na casa do Vinicius. Foram dois cestos enquanto ele dormia e mais um depois que ele saiu para trabalhar. Saí também para tomar café da manhã. Depois de tentar em vão no Mc Donald´s fui ao português da rua de casa. De lá passei na lotérica para receber meu seguro-desemprego. Eu esperava que a situação não fosse chegar neste ponto. Imaginei que me recolocaria antes de sair a primeira parcela. Não foi o caso e agora torço para que não tenha de receber a próxima.
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Fui ao cinema de metrô. Na ida peguei um dos novos trens. Coisa fina. Portas bem largas, ar condicionado, um robô dizendo as estações e não o habitual condutor afônico e tudo o mais. Se eu tivesse de me locomover de metrô iria querer um trem daquele todos os dias.
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Ir ao cinema na primeira sessão, tem lá suas vantagens. Pouquíssima gente (mais 4 pessoas viram o filme comigo), salas limpas e nenhum adolescente barulhento. Contudo, a bilheteria não estava aberta quando cheguei, os funcionários estavam sonolentos e máquina de refrigerantes da bomboniere não tinha refrigerante. Me contentei com um chá gelado.
O filme. Bom, o filme foi o que eu precisava naquele momento. Prendeu minha atenção completamente do início ao fim. No início achei que o clichê fosse dominar a tela toda. Como sempre o recrutador vai atrás do cara com potencialidades gigantes e gênio indomável, mas ele não tem interesse porque prefere ficar batendo a cabeça nas paredes do interior. Mas o recrutador tem uma frase especial que o faz pensar e aparecer no outro dia para encarar o desafio. Eu já vi isso um milhão de vezes e quando vi novamente hoje pensei em pegar meus 14 contos de volta mesmo que para isso tivesse de levar uma poltrona do cinema comigo. Mas, a forma como as coisas se encaminharam foram muito melhores, pelo menos para mim. Por fim, não se tratava de quebrar as regras, mas sim de segui-las, mesmo que elas fossem arbitrárias. Na mão de alguém menos habilidoso seria confuso acompanhar a trama com saltos no tempo, mas o JJ com toda sua experiência de Lost, deixa tudo muito fácil de entender.