Daltr

6 pedras nos meus rins e mais alguma coisa
Sep 24
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Bodas

Protestante de cabelo comprido e roupas sóbrias, foi criada isolada do mundo corrompido, dentro dele, mas ausente de suas ilicitudes. Durante muitos anos ouviu de seus pais o que a vida ainda lhe proporcionaria: um marido, filhos, ser professora da escola dominical.

A fé, nestes momentos, a impedia de achar que a vida é um pouco mais do que isso.  Contudo, essa voz, por mais que baixa, ainda era audível na forma de um descontentamento constante, uma fadiga espiritual.

Foi essa voz que a levou a contrariar os pais no momento de escolher o curso que faria na faculdade. Por eles Letras era um curso condizente com o desejo deles de ter uma filha que também fosse uma boa mãe e melhor ainda professora da escola dominical. Ela porém decidiu que faria jornalismo. Ninguém em casa apoiou a decisão, mas ficaram felizes quando ela foi aprovada no vestibular.

Ela passou pela faculdade sem se envolver muito com as atividades mais desejadas dos calouros e veteranos. Nada de festas, encontros em repúblicas, churrascos e bebedeiras. Fez um pequeno grupo de amigos, pessoas que não se preocupavam muito em julgar sua vida. Foram bons anos para ela.

Mas depois de formada, veio novamente o incômodo. Não iria trabalhar na área. Seria demais. Seus pais já planejavam  o seu casamento. Sinceramente ela não contava com isso. Preferia continuar com o incômodo que conhecia, um novo poderia ser bem pior.

Mas, quando viu que não haveria escapatória para o casamento, resolveu ela tomar as rédeas do negócio e tomar pelo menos parte desta decisão. Pretendentes nunca lhe faltaram. O que faltava era interesse. Entre eles, escolheu o que parecia mais interessado nas mesmas coisas que ela. Se não lhe cerceasse o direito ao silêncio e nem os momentos de solidão, já seria uma ótima companhia.

A cerimônia foi simples, conforme seu desejo.  Um evento pequeno para familiares e amigos mais próximos. Ainda faltaria uma segunda cerimônia fechada só entre o casal e o pastor. Só após esta, o casamento estaria consumado. Ficou um pouco nervosa nesta noite. Afinal, uma experiência nova ali aconteceria. Nunca pensou muito em sexo. Agora teria de fazê-lo. Era obrigação dela gerar filhos o quanto antes.

Ele foi muito atencioso. Certificou-se de que tudo estaria de acordo com a vontade dela. Ela descobriu um prazer muito maior que a maternidade poderia lhe dar. Ao contrário da dor anunciada, teve orgasmos, vários. Esse prazer imenso lhe calou pela primeira vez a voz que até a pouco gritava em seu peito. Sentia-se agora plena e pronta para começar a viver.

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