De pai pra filho
A forma como nós nos lembramos da coisas diz muito sobre a importância que damos para elas. Eu, por exemplo não consigo me lembrar dos dias que passei com meu pai. Não de todos. E durante muito tempo acreditei que isso era porque nós nunca nos demos muito bem. Hoje fez 5 anos que ele morreu e eu me esforço para lembrar de como foi que chegamos a este ponto. Não consigo. Me lembro de amenidades apenas, como a vez em que estivemos de férias em Belo Horizonte. Eu devia ter 7 ou 8 anos. Resolvemos fazer um programa de homens, ir ao cinema.
Não levamos as meninas. Iríamos sós desbravar a cidade que me acolheu por poucos anos, mas que o acolheu por 25, antes de enxotá-lo. Pegamos o 2001 sentido centro. Era ali que começaria nossaodisséia, ele me disse. No interior nunca andávamos de ônibus , mas em Belo Horizonte era divertido. Dava para ir vendo o caminho com calma, as pessoas apressadas e nós dois apenas nos deslocando sem muita pressa e nem pressão. Ao passar por alguns lugares que lhe traziam lembranças ele me contava histórias. Contou-me que certa vez andara, sem dinheiro para oônibus, de onde estávamos até a Praça Sete para se encontrar com uma namoradinha que acabou lhe dando o bolo. Então, sabendo que seu irmão não saía do Café Pérola, foi até lá afogar as mágoas.
Descemos no início da rua Rio de Janeiro. Como ainda faltava um bom tempo para o início da sessão, paramos para comer. Ele queria me levar a um restaurante, mas menino do interior que ir noMcDonald’s. Ele fez minha vontade. Ficou devaneando na mesa enquanto eu comia se poderíamos abrir um restaurante no interior chamado Mc Ronald ‘s. Eu não soube o que dizer. Saímos de lá e tivemos de fazer outra parada para ele me comprar um sorvete. Enquanto subíamos a rua meu sorvete ia derretendo e me deixandomelecado . Mas como meu pai era um homem prevenido, o que antigamente era chamado apenas de homem, tinha um lenço no bolso e pôde me limpar antes de chegarmos ao cinema.
O plano era assistir ao filme novo dos Trapalhões. Mas foi mal planejado. Querer ir ao cinema no meio das férias, assistir a um filme dos Trapalhões em plenos anos oitenta não era tão simples. A fila composta de mães e filhos dobrava o quarteirão. Fomos direto à bilheteria e descobrimos que os ingressos já estavam esgotados. Não houve jeito e voltamos descendo a rua novamente em direção ao ponto de ônibus. Não me senti frustrado e nem chateado por não ver o filme. O dia tinha sido tão bom, que poderíamos ver o filme outro dia.
Essa lembrança me impede de entender como foi que nos afastamos tanto. Talvez, por me lembrar apenas dos bons momentos, isso signifique que não ficaram mágoas, não da minha parte. Mas quais seriam as lembranças dele se ele ainda estivesse por aqui?